domingo, 25 de setembro de 2016

Chá de Domingo #93 : Ainda Sobre o Cyberpunk - Parte 2/4

Decidi explorar um pouco a génese e a essência do cyperpunk. Podem encontrar a primeira parte deste artigo aqui.


"Quando iniciamos o cyberpunk, queríamos realmente dar nas vistas - sair desta pequena sub-cultura de ficção cientifica - só para surpreender toda a gente. E conseguimos fazê-lo. Ninguém pode prever os futuros que nós imaginamos. As coisas mudaram desde os primeiros dias do cyberpunk e, para começar, eu estou muito mais interessado em problemas teóricos profundos. Claro que faço coisas do género MTV, flash imaginery - que ao início me parecem boas ideias mas que acabam por não me encher as medidas. Eu quero chegar à mente das pessoas. Eu quero chegar ao estado de conhecimento como poder."

"O que é realmente bom acerca do punk é que é rápido e denso. Tem carradas de informação. Se valoriza a informação acima de tudo, então não se preocupa com convenções. Não é 'Quem é que você conhece?'; é 'Quão rápido és? Quão denso?' Não é 'Fala como os meus colegas?' é 'Isto é interessante?' Então o que eu estou a dizer é que o cyberpunk é do género: a ficção científica não é fácil de ler, tem muita informação, e fala de novas formas de pensar que advém da revolução computacional."

"O que é mais importante é que Neuromancer é acerca do presente. Não é realmente sobre um futuro imaginado. É um modo de lidar com o espanto e o terror inspirado pelo mundo em que vivemos. Estou ansioso para saber o que irão achar dele no Japão."

"Como género literário, o que aconteceu foi o que acontece a qualquer coisa nova bem sucedida em todos os ramos da cultura pop. Cyberpunk passou de algo refrescante, inesperado e original para ser a última moda, para ser uma formula comercial, para ser um estilo repetido até à exaustão, com uma lista de elementos estilísticos completa e formas reverenciadas que necessitam de ser referenciadas para que alguém escreva um Verdadeiro Cyberpunk..."

"O tempo e a sorte foram gentis com os cyberpunks, embora eles tenham mudado com os anos. A doutrina central da teoria do movimento era 'intensidade visionária'. Mas, já passou algum tempo desde que um cyberpunk tivesse escrito algo verdadeiramente surpreendente, algo que se contorça, solte, uive, alucine e parta a loiça toda. No trabalho mais recente destes veteranos, nós vemos uma trama afinada, melhores personagens, uma prosa cuidada e muito 'futurismo perspicaz e sério'. Mas também vemos muito menos back-flips espontâneos e danças loucas em cima da mesa. Os cenários ficam cada vez mais perto da realidade presente, perdendo os arabescos barrocos da fantasia solta: os problemas em causa assemelham-se horrivelmente às preocupações corriqueiras de uma pessoa de meia idade. E isto pode ser esplêndido, mas não é guerrilha."


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Ebooks: Sete Vezes Sete

Um bom conto para quem adora o universo arturiano.


Autora: Inês Montenegro
Sinopse: Na história da criação de Excalibur, muito foi o que Nimueh, Dama do Lago, perdeu.


A execução é competente. Apesar das diversas personagens e do foco ir mudando, há um fio condutor sólido. A trama vai-se desenrolando e os acontecimentos vão mantendo o leitor interessado. Gostaria que o conto se tivesse focado mais na personagem principal, que acabou por ser descrita de um modo muito superficial para o tamanho do conto. As descrições estão bem conseguidas, não se destacando nem se mostrando ausentes. Em suma, um bom conto em que lhe ficou a faltar a vivacidade das personagens.
Recomendo a quem quiser conhecer um pouco mais do trabalho desta jovem escritora.

Classificação: 3 estrelas

domingo, 18 de setembro de 2016

Chá de Domingo #92: O que Procuram num Curso de Escrita Criativa?

O que procuram num curso de escrita criativa? Foi esta a pergunta que fiz a escritores lusófonos e cujos resultados vou divulgar neste artigo.


A primeira pergunta foi a idade, para estabelecer o perfil etário dos escritores:


De notar que isto não reflecte o universo de escritores, mas apenas os que preencheram o formulário que foi divulgado através das redes sociais. Grande parte dos que responderam a este inquérito (75.3%) estão entre os 18 e os 35 anos de idade.

A segunda pergunta incidiu sobre o número de obras publicadas e a intenção de o fazer:



A grande maioria (61%) ainda não publicou nenhum livro nem ebook, mas conta fazê-lo num futuro próximo.

A terceira pergunta incidiu sobre a utilidade dos cursos de escrita criativa:



84.4% dos inquiridos consideraram que um curso de escrita criativa poderia ajudá-los a melhorar a escrita.

Para os 15.6% que responderam que não ajudaria, o inquérito termina. Analisando melhor a situação, deveria ter acrescentado um par de perguntas para essas pessoas, para perceber porquê é que consideravam que um curso não os poderia ajudar.

A quarta pergunta incidiu sobre o local do curso:


A maioria (43.1%) não tem uma preferência. No entanto, existe uma tendência para o online (35.4%) mais forte do que para o presencial (21.5%).

A quinta pergunta foi sobre o que mais valorizam num formador:


Pode-se concluir que a experiência como editor é o mais valorizado (52.3%), seguido do conhecimento do mercado editorial (23.1%). A formação universitária relevante vem em terceiro com 10.8% e outras razões em quarto com 9.2% (os outros factores enunciados estão relacionados com a experiência e formação) A exposição mediática e o número de publicações não parecem ser relevantes de todo, conseguindo uma percentagem mínima (1.5% e 3.1% respectivamente).

A sexta pergunta incidiu sobre os tópicos que deveriam ser abordados num curso:


A categoria Erros Comuns e como evitá-los foi considerada importante por 78.5% dos inquiridos. Estrutura/organização da narrativa surge empatada com o desenvolvimento das personagens em segundo lugar com 76.9% das escolhas. Criação de Mundos ocupa a quarta posição com 61.5% das escolhas, seguido de perto pelas técnicas de revisão com 60%. No sexto lugar aparece a escrita de contos com 43.1%. Em sétimo lugar surge a auto-publicação com 32.4% e em oitavo o desenvolvimento da não-ficção com 27.7%.

A sétima pergunta focou-se no preço justo de um curso de escrita criativa:


A maioria do inquiridos mostrou preferência por um valor em volta dos 5 euros por hora (58.4%). 12.3% considera esse valor muito elevando e 29.3% considera esse valor muito baixo.

A oitava e última pergunta prende-se com a duração de uma curso:


Há uma clara preferência por um curso mais alargado: 44.6% preferem um dia inteiro e 23.1% uma manhã ou uma tarde. O que bate certo com o facto de terem considerado múltiplas escolhas nos assuntos a abordar. Na outra ponta, há 21.5% que considera que duas horas é o tempo ideal, havendo apenas 10.8% que considera que três horas é mais adequado.

Teria sido interessante pedido o género dos inquiridos e talvez incluir mais uma ou duas faixas etárias. Poderia também ter segmentado um pouco mais as obras publicadas e a falta delas. Na duração, seria interessante colocar a opção de uma única sessão ou de múltiplas sessões, por exemplo ao fim do dia. São dados bastante reveladores, que podem ser úteis para quem deseje leccionar cursos de escrita criativa. Gostaria que a oferta destes cursos estivesse mais coordenada com a procura. O que é que vocês acham?

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Ebooks: Raktabija

Mitologia indiana reencarnada na época contemporânea.


Autora: Carina Portugal
Sinopse: Uma gota de sangue, mil demónios… Há milénios, a deva Kali enfrentou o terrível general-asura Raktabija, quando este atacou o mundo dos homens com os seus terríveis exércitos. Pensou tê-lo derrotado, contudo uma pequena parte do demónio escapou incólume.


Por não conhecer a mitologia que estava subjacente a este conto, pude lê-lo sem preconceitos. A cena inicial desperta o interesse e o desenvolver da mesma não desaponta. As descrições ajudam a ambientar o conto. As personagens contem a profundidade que se pode esperar de um mito. A trama desenvolve-se num crescendo muito bem conseguido e com o final bem executado. Em suma, um excelente conto.
Recomendo vivamente a quem se interessar por mitologia indiana e quiser conhecer o trabalho de uma escritora emergente.

Classificação: 5 estrelas

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Ebooks: O Domador de Dragões

Dragões, anões e humor: o que mais se pode querer?


Autora: Inês Montenegro
Sinopse: Aldrabar o currículo pareceu a João uma mais-valia. Mas talvez, e apenas talvez, não o devesse ter feito quando o novo emprego implicaria domar um dragão.


Gostei da maneira como o conto foi conduzido. Passamos uma boa parte da história sem saber se haveremos de gostar ou de detestar o protagonista. A autora cria tensão, embora só quanto baste para ir mantendo o leitor atento. Gostei das descrições e do tom usado. O desenlace era esperado e ainda tem o bonus de dar uma "lição". Em suma, um conto bem escrito que entretem, embora não se destaque no repertório da autora.
Recomendo a quem quiser conhecer um pouco mais da obra des jovem promessa nacional.

Classificação: 3 estrelas

domingo, 11 de setembro de 2016

Chá de Domingo #91: Ainda Sobre o Cyberpunk - Parte 1/4

Aproveitando a onda Cyberpunk gerada pelo lançamento da primeira antologia do género portuguesa, gostaria de partilhar convosco algumas citações que ajudam a contextualizar e a compreender a origem do cyberpunk.


"Apesar de agora o cyberpunk ser visto como um género bem sucedido da ficção cientifica, era bastante controverso quando começou. Mas, era como nós queríamos que fosse. Todos nós tinham, e ainda temos, um desejo incansável e implacável de quebrar os limites da realidade consensual. Se ninguém estiver chateado, então é porque não nos estamos a esforçar o suficiente... Começamos a escrever cyberpunk porque tínhamos um descontentamento forte em relação ao status quo da ficção cientifica, e também com o estado da sociedade em geral."

"Não tinha um manifesto. Tinha só algum descontentamento. Parecia-me que a ficção científica americana de massas a meio do século era frequentemente triunfalista e militarista, uma espécie de propaganda popular do excepcionalidade americana. Estava cansado da América-que-é-o-futuro, o mundo como uma monocultura branca e do protagonista da classe média ou acima. Eu queria tornar-me um espaço de manobra. Eu queria espaço para anti-heróis."

"Eu também queria que a ficção científica disse mais naturalista. Houvera uma pobreza na descrição na maior parte dela. A tecnologia descrita era tão eficiente e limpa que era praticamente invisível. O que seria de qualquer livro de ficção científica se pudéssemos melhorar a resolução? Como era na altura, a maioria dos livros era como os jogos antes da invenção da sujidade fractal. Eu queria ver a sujidade nos cantos."

"A ficção cientifica estava encravada num locus amenus nos anos 80. Podia ir a uma livraria e encontra Arthur C. Clark ao lado da Odisseia ou os livros de Asimov acerca das três leis da robótica. Robert Heinlein ainda estava a produzir sexo e filosofia em série. Mas, apesar dos esforços de uma variedade de inovações literárias, a ficção científica estava basicamente igual há vinte ou trinta anos atrás. Era uma experiência preguiçosa do futuro. Os cientistas faziam coisas competentes, a tecnologia aeroespacial estava na moda, e a política circulava à volta de conflitos entre nações. E então veio o cyberpunk - Pat Cadigan, William Gibson e Bruce Sterling. Foi subversivo e gritty, uma viagem caleidoscópio-poética ao futuro capitalista. Corporações sem face erguem-se acima dos dramas insignificantes do comum mortal, movimentando biliões de dollars e yens à volta do mundo enquanto os humanos da história vivem miseráveis. Eram cyberespaço e cowboys do teclado, casacos de cabedal, implantes de lentes Zeiss, próteses russas modificadas, extinct horses e mirrorshades. O futuro era bizarro e ameaçador - e também estranhamente real."

"A tecnologia não é neutra. Nós estamos dentro daquilo que fazemos, e ela está dentro de nós. Nós vivemos num mundo de ligações - e faz diferença quais fazemos e cortamos."
- Donna Hardaway

Podem encontrar a segunda parte deste artigo aqui.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Ebooks: Antologia Steampunk

Esta antologia vem tornar o panorama steampunk português um pouco mais rico.


Autores: Carina Portugal, Inês Montenegro, Pedro Cipriano e Ricardo Dias
Sinopse: Quatro contos de quatro escritores, onde é explorado um pouco do imenso mundo movido a vapor que é o Steampunk.

"Relógios e Bruxarias", por Inês Montenegro:
Numa sociedade em que a magia é ilegal e a bruxaria perseguida, o desejo de Mina em ver vingar o seu negócio leva-a a afastar sentimentos e preocupações.
Até ao dia em que Helena lhe pede auxílio.

"A Ascensão e Queda de “Zé Saltador”", por Ricardo Dias:

Spring-heeled Jack, mito urbano e criminoso profissional, decide escapar de Inglaterra e usar Portugal para iniciar uma carreira internacional. Mas nem tudo corre como planeado...

"A Mina de Carvão", por Carina Portugal:

Em colaboração com o Império Português, Charlotte Reeve, uma das melhores agentes da Coroa Britânica, é enviada para a cidade de Tete, em Moçambique. A sua missão é capturar vivo um dos mais retorcidos traficantes de humanos. Mas consegui-lo-á?

"A Canção da Fornalha", por Pedro Cipriano:

A grande fornalha é o coração da cidade. A sua música não deixa ninguém indiferente, muito menos o mestre das caldeiras.


Como é normal neste tipo de antologia, irei dar uma pontuação a cada um dos contos e a pontuação da antologia será a média dos contos, excluindo o meu.

Relógios e Bruxarias - Inês Montenegro
O final ficou demasiado em aberto. A trama consegue prender o leitor desde a primeira página até à última. As descrições ajudam a contar a história. Gostaria que a autora tivesse explorado um pouco mais o mundo. Creio que a alternância entre as duas personagens principais não beneficiou o conto.
3 estrelas

A Ascensão e Queda de "Zé Saltador" - Ricardo Dias
Apesar de tudo, conseguimos uma certa empatia com a personagem principal. É um conto com boas descrições da tecnologia e boa ambientação. Consegue manter a tensão e o interesse do leitor. Fiquei na dúvida se isto é steampunk ou atompunk.
4 estrelas

A Mina de Carvão - Carina Portugal
A autora conseguiu criar um excelente empatia com a personagem principal. A ambientação steampunk num cenário africano foi muito bem pensada e melhor conseguida. A tensão é mentida desde a primeira página e o final não desaponta. Só achei um pouco redundante a cena final.
5 estrelas

A Canção da Fornalha - Pedro Cipriano
Não tenho por hábito fazer uma crítica aos meus próprios trabalhos e conto continuar assim.

Classificação: 4 estrelas